Penitenciária da Pedra Grande (Trindade) – década de 1930

31 de outubro de 2008

Acervo Penitenciária Estadual


Personagens do documentário fotografados pelo DOPS em 1975. (acervo: Celso Martins)

30 de outubro de 2008


SAIBA O QUE É AUDÁCIA

28 de outubro de 2008

“Audácia” conta um pouco do que foi a Operação Barriga-Verde (1975), a partir do cotidiano dos presos e guardas da antiga Colônia Penal Agrícola de Canasvieiras (Florianópolis-SC). O site que estréia, vai acompanhar a produção, as gravações e o momento da edição do trabalho, antecipando alguns fatos e personagens envolvidos pela repressão.

Voltada contra integrantes do Partido Comunista Brasileiro-PCB, que não havia entrado na luta armada contra o regime, a Operação atingiu diretamente 42 profissionais liberais, professores, advogados, operários, mineiros e estudantes, homens e mulheres. Alguns foram recolhidos a Canasvieiras onde, apesar de trancafiados, protagonizaram com a guarda momentos de tensão, irreverência e até humor.

Confira a seguir a entrevista que o jornalista Luis Fernando Jurkowitsch fez com o diretor de “Audácia”, Chico Pereira.

 

 

Audácia remete à audaz. Segundo o Dicionário Aurélio, audaz é aquele sujeito que tem audácia, ousado, corajoso, temerário. Pergunta inevitável sobre o documentário: que Audácia é essa?

Novalis, o poeta, escrevia em 1798 que: “Cada ser humano é uma pequena sociedade”. Acredito que cada um de nós constrói suas próprias convicções. Em algum momento das nossas vidas, durante a juventude, somos confrontados por fatos históricos e políticos e postos à prova pra defender nosso ideário de mundo na sociedade em que vivemos. Aí a coisa pega. Assim, não posso deixar de também citar Oswald de Andrade, nosso poeta antropofágico: “As idéias tomam conta, reagem, queimam gente na praça pública.” Portanto, respondendo a sua pergunta sobre a Audácia tratada no documentário, é a defesa de nossas razões íntimas, nossas crenças e opiniões.

 

 

Quais caminhos te levaram a abordar este tema, tão caro à história de Santa Catarina e aos tempos de privação política no Brasil?

Existe a necessidade de um certo distanciamento de tempo para entendermos fatos da história, principalmente da história recente. Este tempo chegou. E chega de forma impassível para os acontecimentos da década de setenta, com personagens dispostos a dar seus depoimentos.

A sociedade brasileira custou mais aceitou, de forma consensual, constatar que houve, em certo período, a supressão dos direitos políticos elementares dos cidadãos de nosso país. Em Santa Catarina há uma história de resistência que precisa ser resgatada, para assim, entendermos este tempo e os homens que lutaram por seus ideais. O caminho que me levou a abordar o tema foi realizar um recorte numa ação patrocinada pelos órgãos de repressão denominada “Operação Barriga Verde”. É basicamente inspirada em episódios ocorridos na Colônia Penal de Canasvieiras, no norte da ilha, entre 1975 e 1977.

 

 

Como você analisaria, no contexto atual, a convivência (se é que existe) entre “vigiados e vigilantes”? Resta alguma animosidade, raiva, rancor?

Não, de forma alguma! Descobrimos, sim, vítimas, incompreensões e marcas de sofrimento físico e moral. Sentimentos de arrependimento, pesar e remorso. Agora, o documentário revela a altivez de personagens com dignidade, brio, nobreza e, sobretudo, audácia. A convivência de vigiados e vigilantes, que é a trama do filme, foi mesmo sendo efêmera, paradoxal, numa colônia penal agrícola, quase esquecida no norte de uma ilha chamada Florianópolis.

 

 

 

Você, na sua função de realizador e produtor cultural, o quê espera da repercussão do seu documentário, Audácia?

Estamos tratando de um tema universal. O que aconteceu com a gente, aconteceu, talvez em outra escala, no Chile, no Uruguai e na Argentina. Está acontecendo no Iraque, enquanto falamos em Guantanámo, vigilantes e vigiados constroem suas relações ao seu modo. Espero que o público se interesse em saber como isso se deu aqui. O que o documentário reserva, são histórias de condutas até hoje não contadas, mas que podem ser compreendidas por qualquer habitante do planeta.