Cumprindo pena (3o capítulo)

        O blog está apresentando, em capítulos diários, a história dos acontecimentos na Colônia Penal de Canasvieiras, escritas por Celso Martins em seu livro “Os quatro cantos do Sol: Operação Barriga Verde”. Hoje, o terceiro capítulo:

 3. Sala secreta

         Nas cartas e bilhetes que escrevia para a família, Marcos Cardoso Filho abordava algumas coisas com maior cuidado, advertindo os familiares para “ciladas”.. Quando as visitas foram restringidas no quartel do 4º BPM, Marcos orientou a mãe a não tentar obter “requisição sob hipótese alguma” junto à Polícia Federal. Também que não mandasse carne, “porque eles tiraram o assador (grill)”, solicitando que ela fosse “falar com o comandante à tarde e pedir para me visitar”. Para tranqüilizar dona Belmira, afirma que “tá tudo bem comigo. Não se preocupe. Conversaremos mais breve do que imagina”.

         Numa sexta-feira, dia 27, Marcos datilografa um extenso bilhete e o encaminha ao seu “pessoal”, onde fala das visitas “uma vez cada 15 dias, quando vocês podem preparar tudo o que tem para dizer (escrever) e trazer os jornais ou livros”. E insiste: “Diga que não tem tempo para ir buscar autorização na Polícia Federal e que só pode ir cada 15 dias”. Ele aprofunda estas recomendações, numa outra carta, dirigida a dona Belmira. “Se vocês quiserem vir sábado, fica a critério de vocês. Quanto a mim tanto faz. Estou bem”, diz num longo bilhete datilografado. “Se puderem conversar com alguns deputados do MDB”, podem ir, se referindo a Murilo Canto, Fausto Brasil, Sílvio Silva Sobrinho e Walmir Wagner. “Talvez seja bom ir falar com o Zany Gonzaga (secretário de Justiça). Se alguém for em Curitiba é bom falar com o Auditor, mas não peça muita coisa”.

         Endereçado ao “Pessoal”, seus familiares, recomenda no mesmo bilhete: “Tire várias fotocópias da carta que mando junto e mandem para os deputados da Arena”, diretórios acadêmicos, Associação dos Professores da UFSC (Apufsc) e ao presidente da então Associação dos Licenciados de Santa Catarina (Alisc), depois Sinte, Júlio Wiggers. 

        Inicialmente ele toma alguns cuidados em relação ao professor Jean-Marie Farines, seu colega francês na UFSC, ligado ao PCB. Fala num “professor meu amigo”, depois coloca as iniciais J.M. e, por fim, cita o prenome, após ter recebido algumas visitas do mesmo, não sendo mais novidade a ligação entre os dois.

A leitura atenta que Marcos Cardoso fez da legislação penal militar foi útil para estabelecer uma estratégia de saída da prisão via livramento condicional. Primeiro pediu que advogado Djalma Garbelotto encaminhasse uma “petição ao promotor para me dar liberdade condicional para dar aula, pois a UFSC não ofereceu a cadeira que eu daria por não ter professor”, recomendado em bilhete manuscrito sem data ou destinatário. “Pedir isso ao Garbelotto hoje mesmo! Pede para o J. Marie fazer também!”

         Em outro bilhete manuscrito dirigido à Janete, pede que telefone ao advogado reforçando o encaminhamento da petição. O esforço foi feito, mas não rendeu o esperado. Marcos decide elaborar um requerimento ao juiz Auditor em Curitiba e pede que alguém o leve pessoalmente. “Não entregue para quem for daqui a 15 dias. Se não aparecer ninguém até terça-feira, o pai do JJ leva. Não deixe extraviar”, recomenda em bilhete datilografado à mãe. JJ é João Jorge de Sousa, de Joinville, responsável pelo ingresso de Marcos no PCB.

No mesmo bilhete, quer que dona Belmira avise ao advogado Acir Breda, que defende vários presos políticos, ter revogado “os poderes que foram conferidos ao dr. Garbelotto, por não mais interessar”. Que Breda indique outro, podendo “pagar uma certa quantia (dependendo de quanto)”. A preocupação de Marcos agora se volta para a audiência em que seriam ouvidas as testemunhas de acusação, sendo “importante que tenha um advogado” até lá.

         Entre eles, surge a idéia de contratar o advogado Augusto Sussekind de Moraes Rego. “Vocês pegaram o telefone dele? Já pedi isso faz bastante tempo. Vejam isso até sábado”, cobra, voltando a fazê-lo em outras três mensagens à família. “E o Sussekind? Este é o melhor de todos. Ele mora no Rio”, dando o endereço da seccional da OAB-SC, na época na rua Felipe Schmidt. O contato foi feito, sendo gastas muitas folhas de papel orientando as negociações sobre o preço, compra de passagens e outros detalhes.

          Num dos poucos bilhetes datados e com título (“com relação ao advogado”), de 15 de agosto de 1976, apela que expliquem ao defensor a realização em Florianópolis de duas audiências do Conselho Permanente de Justiça da 5ª Auditoria Militar, com sede em Curitiba, em setembro seguinte. Especialmente a primeira, onde seriam ouvidas as testemunhas de acusação. “Dizer a ele que me encontro preso a mais de 10 meses e que é possível que nem sequer se tenha pedido o relaxamento da prisão preventiva na Auditoria”.

         A segunda audiência da 5ª Auditoria, realizada na então Escola Técnica Federal no dia 23 de setembro de 1976, relaxou a prisão de 19 presos políticos. “Depois de um período de um período de 4 horas e meia de deliberação, reservadamente, o Conselho deferiu o relaxamento da prisão preventiva de 19 acusados, que foram liberados às 21 horas de ontem”, noticia o jornal O Estado do dia seguinte. Outros sete  “continuarão a responder processo em prisão”, enquanto Vilson Rosalino da Silveira, exilado na França, foi julgado à revelia.

Marcos não estava entre os liberados. Nem foi fechado o acordo com Sussekind de Moraes a tempo. Ele, mais Alécio Verzola (Florianópolis), Edgard Schatzmann, Irineu Ceschin (Joinville), Jorge João Feliciano, Roberto Cologni (Criciúma) e “o rumeno” (sic) Teodoro Ghercov, continuariam na Colônia Penal. Atuaram na defesa os advogados Djalma Garbelotto, Antônio Acir Breda, Joel Gama Lobo d’Éça, Reginaldo Beltrame, Aureliano Madre Gonçalves e Amilton Padilha, “todos militantes no foro de Curitiba e na Justiça Militar”, acrescenta o mesmo jornal. A audiência começou às 13h30, diante de parentes “impacientes”. “Choros, manifestações nervosas e inquietações já se podiam observar”.

         Os advogados de defesa se revezaram na tribuna a cada 15 minutos e, às 16h30, o Conselho “se locomoveu para a sala secreta de votação”, com cerca de 20 policiais militares formando “uma ala de segurança”, enquanto “policiais civis circulavam pelo recinto, juntamente com elementos da Polícia Federal”. Para audiência, os presos chegaram transportados por um ônibus da Polícia Militar, vindos da Colônia Penal, Manicômio Judiciário e Quartel da PM, “onde estavam alojados”. 

         Permaneceram sentados “nas primeiras filas das poltronas do auditório, sempre voltando às cabeças para trás para rever os parentes”. Por alguns instantes e acompanhados por dois policiais, puderam conversar com “as esposas, pais, filhos e amigos”. No final da tarde, por volta das 17 horas, enquanto aguardavam a decisão do Conselho composto por um juiz togado e quatro militares, “os parentes levaram lanches para os acusados”.

             Entre os que foram para casa naquele dia, estava a irmã de Marcos, Rosemarie Cardoso Bittencourt, que residia em Joinville, assim como Júlio Serpa, João Jorge de Souza e Antônio Justino. De Florianópolis foram liberados Roberto Motta, Cirineu Martins Cardoso e Valci Lacerda. De Criciúma, saiu o grupo mais numeroso formado por Sebastião Goulart, Luiz Jorge Leal, Jobe Silva da Nova, Cyro Manoel Pacheco, Lorival Espíndola, Túlio Valmor Bresciani e Roque Felipe. Dois militantes de Itajaí também foram beneficiados, Emanoel Alfredo Maes e Edésio Ferreira. Newton Cândido foi liberado do processo em Santa Catarina, mas continuou respondendo iguais acusações no Paraná e São Paulo. Vladimir Amarante, de Videira, mas residindo no Paraná desde meados de 1975, após ter se formado em Direito em Florianópolis, continua a responder processo naquele estado. O dentista Sérgio Giovanella (de Blumenau) e Celso Padilha, já tinham sido liberados. Eleneide Lícia Martins, Everaldo Brodbrock, o médico João Augusto de Melo Saraiva, Márcio Campos, Neli Piccoli, Osni Rocha (Didi, Joinville) e Paulo Antônio estavam livres há mais tempo. (Não deixe de ler amanhã, “O drama de Motta” o quarto capítulo)    

 

 

 

 

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