Documentário

 

            Audácia, é uma obra de caráter reflexivo sobre emoções e pensamentos, ideários de homens conduzidos por um destino inusitado da vida política de nosso Estado. Recortes da vida, cotidianos prisionais de vigilantes e vigiados num momento duro da história do Brasil e de Santa Catarina.

            Em Florianópolis, em pleno regime militar nos anos 70, a Operação Barriga Verde leva a cabo a prisão de 42 pessoas: jovens idealistas, antigos militantes, jornalistas, professores, operários, homens e mulheres. O destino preserva, de certa forma, os órgãos de repressão do nosso Estado na autoria de ações daquele tempo. A Circunscrição Militar da Região Sul era sediada na cidade de Curitiba e foi lá, no Estado do Paraná, que se cometeram obras de verdadeiros martírios em corpos e mentes de cidadãos catarinenses. Depois de recolhidos à Curitiba, eles regressam à Ilha. É então que ocorre uma série de circunstâncias inusitadas que marcam, de certa forma como um paradoxo, a triste história deste período. Parte do grupo é levada para a então Colônia Penal Urbano Salles, no pacato e distante bairro de Canasvieiras, no extremo norte da cidade. O fato é que o local não estava preparado para receber detentos como eles, com nível superior, profissionais liberais de hábitos distintos. A partir daí transcorre uma série de acontecimentos que levam a um Inquérito Policial Militar, que acaba por decretar a prisão do capitão da PM Nelson Coelho, responsável pela guarda do grupo. Vigilantes punidos por não entenderem as culpas dos vigiados, um contra-senso registrado em documentos oficiais. O que poderia ser engraçado, se não fosse uma realidade marcada por absurdos, é o fio condutor de AUDÁCIA.

         O documentário almeja fazer uma leitura áspera e ao mesmo tempo delicada, de atitudes que se pautaram pelo instinto de sobrevivência. Assim, pretende assumir uma qualidade de crônica de histórias particulares com enfoques intimistas e não somente revelar os agentes de um documentário histórico.

          O enredo é fundamentado na importância de como essas lembranças individuais surgem no presente e como são narradas agora, sem amarras, sem os elos impostos no momento em que foram vividas.

            “As imagens dão acesso não ao mundo social diretamente, mas sim a visões contemporâneas daquele mundo…” (Flaubert).

             São declarações de carcereiros, agentes penais, membros da reserva da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina que se acoplam a relatos de presos políticos, familiares e ao registro de testemunhas daqueles tempos ou de seus descendentes. O argumento se explica por este caráter intimista, utilizando-se dessas investigações de vidas privadas que nos levam a episódios de interpretações diversas.  

            Os depoimentos dos personagens vivos e os acontecimentos passados servem como mote para a fusão das narrativas. Serão criados numa série de curtos momentos, pequenos blocos, histórias individualizadas e estruturas próprias que se encerram a cada novo episódio. Dessa forma, o roteiro prevê um vai e vem de personagens. Uma série de blocos que se fundem, se moldam e na soma dos eventos contados, faz crescer a história. 

             Gente simples dos dois lados: vigilantes e vigiados, que cresceram morais e espiritualmente na troca de experiências de uma convivência forçada. É na Colônia Penal que acontecem os fatos que inspiraram este documentário.

AUDÁCIA é o ganhador do premio DOCTV IV, que patrocina este projeto em Santa Catarina.

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